19 de abril de 2011

MADRIGAL MELANCÓLICO ( Manoel Bandeira )



O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela
De  fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil, tão luminoso.
Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência,
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que  perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é  a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi
E nem meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza, nem a tua impureza.

O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!

O que eu adoro em ti, é  A VIDA !


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