11 de maio de 2011

OLHAR ETERNO ( ARTHUR DA TÁVOLA)



Das adivinhações do Amor,não há mais funda que 
a dos olhares que se atam sem poder desprender.
Namorados assim o fazem,
paqueras, aranhas, serpentes, aves, 
répteis, mamíferos, amantes, amigos, esposos.

O olhar aprisiona-se no mistério do outro.
E fala de encontros não-verbais, essências. 
Economiza tempo.

Avança ou retrocede milênios na adivinhação do próximo.
O que será este olhar ? Susto? Sustar é Paralisar.
Há uma paralisia quando o amor é pressentido. E com razão.
Nele, incubado, o milagre da reprodução.

Em quem se assusta-se-olhando, pulsa a procriação.
Criar vida emociona.
É a certeza da responsabilidade inerente, 
a proximidade do milagre e do mistério.
Susto mas adivinhação.

No olhar que se não  desprende,
pulsam mensagens sem explicação racional.

São formas de comunicação ancestrais, antigas como o tempo.
Adivinhação mas procura.

No olhar de quem se adivinha amando, 
paralelo à felicidade transmite-se procura, indagação, 
ânsia de descobrir que se veio ao mundo 
para resgatar as incompletudes daqueles com quem 
se relacionará profundamente, 
se os  encontrar e souber que encontrou.

 Procura mas encontro.
No olhar que se cruza e paralisa cheio de significações 
encontra-se a instância deslumbrante na qual o ser 
se descobre aceito, querido, perdoado e permitido.

 ...Sombra mas Espelho.
Se o olhar que se encontra revela o fundo do outro ser, 
transparente em sua averbalidade, 
ao mesmo tempo ele devolve a imagem 
de quem olha espelhando apenas 
o lado bom, nítido, fada ou príncipe encantado.

Reflete a melhor luz, a aura mais doce.
Não, não me refiro ao olhar apaixonado.
Falo de algo além, o olhar que se paralisa no outro.
Que se apavora de adivinhar-se possivelmente feliz 
e se descobre em profundidade e espanto 
no poço do outro,
no fundo do qual mora uma certeza nunca antes confirmada.

Está no amor ou na paixão como na amizade ou atração carnal.
Está na chegada como na despedida, 
aparece no meio da festa ou durante o jantar, na fila do Maracanã ou na solenidade de posse. Está nos hospitais ou na Igreja. 
No crime ou no perdão.Ele não tem medo. 

Não depende de conveniências, não precisa ser o primeiro olhar: pode vir muitos anos depois de quem, ou para quem já, muito se olhou.

É instante de revelação e descoberta:
revela verdades anteriores à própria vida.

Atemporal, independe também de espaço: perdura no cosmos, 
religa verdades, encarnações, cromossomos.
Pode vir pacífico como  amplidão
ou aflito como a taquicardia, que em geral provoca.


...Nada o detém, limita ou qualifica.
...Sua relação é com as certezas que a razão nunca terá, mas a emoção,  intuição e o sentimento ( que vão além), de há muito as conhecem. 
Existe quando e onde  sempre existiu. E existirá, a despeito de nós.

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