20 de maio de 2011

A VERDADE ( Carlos Drummond de Andrade )



A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil,
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir
Qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

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