29 de junho de 2011

A NOITE NA ILHA (Pablo Neruda)


Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha,
selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.

Talvez bem tarde nossos sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.

Talvez teu sono se separou do meu
e pelo mar escuro me procurava como antes,
quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado,
e teus olhos buscavam o que agora - pão,vinho,amor e cólera -
te dou, cheias as mãos, porque tu és a taça
que só esperava os dons da minha vida.

Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto, e no meio da sombra
meu braço rodeava tua cintura
nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.

Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca saída de teu sono
me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

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