13 de outubro de 2011

POETA ( Manoel de Barros )







O filósofo Kierkegaard me ensinou 
que cultura é o caminho 
que o homem percorre para se conhecer.


Sócrates fez o  seu caminho de cultura
e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada.


Não tinha as certezas científicas.
Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza.


Aprendeu que as folhas das árvores 
servem para nos ensinar a cair sem alardes.


Disse que fosse ele caracol vegetado
 sobre pedras, ele iria gostar.


Iria certamente aprender o idioma
 que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.


E gostava mais de ensinar 
que  a  exuberância  maior
 está nos insetos  do que nas paisagens.


Seu rosto tinha um lado de ave.
Por isso ele podia conhecer
 todos os pássaros do mundo
pelo coração de seus cantos.


Estudara nos livros  demais.
Porém aprendia melhor no ver, 
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.


Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho,um só pequeno grilo, 
podia desmontar os silêncios de uma noite!


Eu vivi antigamente com 
Sócrates, Platão, Aristóteles - esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: 
Quem se aproxima das origens se renova!


Píndaro falava pra mim que usava
 todos os fósseis linguísticos que achava
 para renovar sua poesia.


Os mestres pregavam 
que o fascínio poético vem das raízes da fala.


Sócrates falava que as expressões
 mais eróticas são donzelas.


3 comentários:

Arnoldo Pimentel disse...

Um poema belo e profundo, parabéns pela postagem.

Luna Sanchez disse...

A linguagem, em relação ao seu poder, ainda é um mistério pra nós.

Um beijo, flor.

OceanoAzul.Sonhos disse...

Manoel de Barros toca-nos profundamente, gosto muito.
abraço
oa.s

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