31 de maio de 2011

POETAS ( Florbela Espanca)



Ai as almas dos poetas
não as entende ninguém,
são almas de violetas
que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas,
é que em  noites de luar
pode entender o poetas.

E eu que arrasto amarguras
que nunca arrastou ninguém
tenho alma pra sentir
a dos poetas também !

28 de maio de 2011

GOSTARIA (J.G.de Araújo Jorge)



Queria compartilhar contigo 
os momentos mais simples e sem importância.
Por exemplo:
Sair contigo para passear, sentir-te apoiada em meu braço,
Ver-te feliz ao meu lado,
Alheia a todo mundo que passasse.

Gostaria de sair contigo para ouvir música, ir ao cinema,
Tomar sorvete, sentar num restaurante diante do mar,
Olhar as coisas, olhar a vida, olhar o mundo despreocupadamente,
e conversar sobre "nós" - esse "nós" clandestino,
que se divide em "tu e eu" quando chega gente.

Encontrar alguém que perguntasse:
"Então, como vão vocês?"
E me chamasse pelo nome, e te chamasse pelo nome,
E juntasse assim nossos nomes, naturalmente,
Na mesma preocupação.

Gostaria de poder de repente te dizer:
Vamos voltar pra casa...
(como se felicidade pudesse ser uma coisa 
a que tivéssemos direito
como toda gente)

Queria compartilhar contigo
os momentos menores da minha vida,
porque os grandes já são teus!

NO SILÊNCIO CONIVENTE DA OMISSÃO (Neimar de Barros)


Estou à procura de um ombro
E, por incrível que pareça, não encontro.
As pessoas tem dois ombros,
recebidos gratuitamente,
e não me emprestam UM...

Não quero possuir, quero emprestado !

Quero um ombro para servir de apoio,
Para a cabeça pesada de problemas
E cambaleante.

Um ombro para recostar e pensar
nas contradições de um dia confuso.
Um ombro-travesseiro,
descansando o cansaço.
Preciso matar dúvidas,
Quero um sopro de maturidade
E não silêncio conivente da omissão.

...vejo mamãe empolgada
com a vida particular de um ator,
E papai falando com sabedoria, sobre cifras
e preocupações políticas.
E nenhum dos dois param,
ninguém pára para saber se eu também sou importante.

Mais importante que as alienações que eles criam
Para fugirem da responsabilidade de SER.

Sou mais importante que a novela, os móveis,
o tapete, a maquiagem, a mesada...

Sou mais importante que a guerra no exterior, 
o futebol, o carro, o jornal, a bebida...

Sou mais importante porque sou GENTE !

E, por incrível que pareça,
não existem ombros ao meu alcance!

Quando saí do colo,
Eu acho que saí do mapa do Amor.
Deixei de ser engraçadinho para ser problema.
Problema porque agora sei o que é real,
Sei o que é falso...

E eu quero um ombro real !
E não um colo falso!

Preciso ouvir a experiência do passado,
E não somente a acusação de que estou errado.
Falem comigo !
E não me apresentem  apenas um dedo em riste.

Não adiantam apontar-me erros,
Se eu não me deparar com os seus acertos.

Não adiantam Berrar... Proibir...Apontar o olho da rua...

Não adiantam dizer que sabem tudo,
Se não souberem que eu preciso de um ombro.

Não adiantam dizer que já passaram por isso,
Se sadicamente ficarem me esperando cair também.

Não adiantam monólogos,
Eu preciso de diálogos,
Eu preciso de ouvidos humildes,
E palavras tranquilas !

Eu quero um ombro
Para encostar minha cabeça tonta...
E falar dos meus estudos, trabalhos, namoros.

Quero informações e não mentiras
Sobre sexo, Deus, Sociedade.

Quero um ombro, porque estou confuso.
Preciso errar menos, sentindo o aroma do exemplo.
Chega do "faça o que eu mando e não o que faço!"

Quero um ombro para chorar a fuga da sinceridade de certos adultos.
Preciso ver testemunhos
E não apenas lê-los.

Chega de divagações!

Eu quero o caminho, verdade e vida.
Eu quero as pegadas de Cristo:
Na rua, em casa, dentro de nós!

26 de maio de 2011

O VERBO AMAR ( J.G. de Araújo Jorge)



Te Amei: era de longe que te olhava
e de longe me amavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.

Te Amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava,
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.

Te Amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor,
enquanto segue a vida, vivendo,
e eu... vou te amando...

Te Amar: é mais que um verbo
é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
Te Amei...Te Amava...Te Amo...e Te Amarei!

24 de maio de 2011

SE VOCÊ ME ESQUECER ( Pablo Neruda )


Eu quero que você saiba uma coisa.
Você sabe como,  como é:
se eu olhar a lua de cristal,
os ramos rubros
do lento outono em minha janela,
se eu tocar perto do fogo
a implacável cinza,
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva a você,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos 
que navegam
em direção às tuas ilhas que me esperam.

Bem, agora...
se pouco a pouco você deixar de me amar,
vou parar de te amar, pouco a pouco.

Se , de repente,
você me esquecer,
não olhe para mim,
pois eu já me esqueci de você.

Se você considera longo e louco,
o vento das bandeiras
que passa pela minha vida,
e você decide 
me deixar na praia,
do coração em que tenho raízes,

Lembre-se...
que naquele dia,
àquela hora,
eu levantarei meus braços,
e minhas raízes partirão
a procurar outra terra.

Mas, se cada dia, cada hora,
você sente que você está destinado para mim,
com doçura implacável,
se a cada dia uma flor 
sobe até seus lábios a me procurar,
Ah ...Meu Amor, Ah Meu....
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada é extinguido ou esquecido,
Meu Amor se alimenta do seu Amor  Amado,
e enquanto você viver,
estará em seus braços,
sem deixar os meus !

23 de maio de 2011

SE TU VIESSES VER-ME ( Florbela Espanca )


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha...
A essa hora dos mágicos  cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra esse sabor  que tinhas
a tua boca...  o eco dos teus passos...
o teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos...  a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
traça as linhas dulcíssimas dum beijo...
E é de seda vermelha  e canta e ri...
E é como um cravo ao sol a minha boca...

Quando os olhos  me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti!

20 de maio de 2011

A VERDADE ( Carlos Drummond de Andrade )



A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil,
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir
Qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

17 de maio de 2011

RENÚNCIA ( Neimar de Barros)



Eu queria uma vida assim com você,
Sem relógio e sem dedo em riste,
Sem lei e sem sociedade,
Sem satisfação e sem chau!

Eu queria uma vida assim com você,
Mas, felizmente, meu querer não é tudo
E meu poder é limitado.
Felizmente, minha palavra se esvai
E este papel se amarela. 
Felizmente porque o bom é a espera,
A incerteza e o talvez são molas propulsoras,
Porque senão a alegria não teria razão
E o chegar não teria partida.

Eu queria uma vida assim com você,
Sem lenço e sem documento,
Mas, o bacana é o adeus, é a volta,
É o riso depois do choro,
É o hoje sofrido e o amanhã exultante.
O bacana é o crescente, a renúncia,
A noite mal dormida, a consciência,
O bacana é a luta,
É saber que existe o perdão.
É a dúvida do "não quero", mas " quero"!

Eu queria uma vida assim com você,
Mas dou graças por não ter,
Porque só assim posso escrever tudo isto,
Só assim eu posso medir-me,
Posso certificar a limitação humana.
Só assim eu sei que nada sou,
Que vivo capengando,
Carregando o que dá
E caindo com o que não dá.
Só assim eu sei o quanto lhe quero,
Quanto posso, mas o quanto não devo !

14 de maio de 2011

AMAR ( Florbela Espanca )



Eu Quero Amar, Amar perdidamente !
Amar só por Amar: Aqui...Além...
Mais este e aquele, o outro e a toda gente...
Amar ! Amar ! E não Amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou  Desprender? É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada,
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que eu saiba me perder... pra me encontrar !

13 de maio de 2011

EU SEI QUE VOU TE AMAR ( Vinicius de Moraes e Tom Jobim)





Eu Sei que Vou Te Amar,
Por toda a minha vida eu vou te amar,
A cada despedida, eu vou te amar,
Desesperadamente, eu sei que vou te amar.

E cada verso meu será
Pra te dizer, que eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida.



Eu sei que vou chorar,
A cada ausência tua eu vou chorar,
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver,
À espera de viver ao lado teu,
Por toda a minha vida.

Eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida eu vou te amar,
A cada despedida, eu vou te amar,
Desesperadamente, eu sei que vou te amar!

E cada verso meu será
Pra te dizer, que eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida!

DA MÚSICA (Kahlil Gibran)



Divina Música !
Filha da Alma e do Amor.

Cálice da Amargura 
E do Amor.

Sonho do coração humano,
Fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragância
E desabrochar dos sentimentos.

Linguagem dos amantes,
Confidenciadora de segredos.

Mãe das lágrimas do amor oculto
Inspiradora de poetas, de compositores
E dos grandes realizadores.

Unidade de pensamento 
Dentro dos fragmentos das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.

Vinho do coração.

Que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
Fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.

Ó música.
Em tuas profundezas
Depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
E a ouvir com os corações.

11 de maio de 2011

OLHAR ETERNO ( ARTHUR DA TÁVOLA)



Das adivinhações do Amor,não há mais funda que 
a dos olhares que se atam sem poder desprender.
Namorados assim o fazem,
paqueras, aranhas, serpentes, aves, 
répteis, mamíferos, amantes, amigos, esposos.

O olhar aprisiona-se no mistério do outro.
E fala de encontros não-verbais, essências. 
Economiza tempo.

Avança ou retrocede milênios na adivinhação do próximo.
O que será este olhar ? Susto? Sustar é Paralisar.
Há uma paralisia quando o amor é pressentido. E com razão.
Nele, incubado, o milagre da reprodução.

Em quem se assusta-se-olhando, pulsa a procriação.
Criar vida emociona.
É a certeza da responsabilidade inerente, 
a proximidade do milagre e do mistério.
Susto mas adivinhação.

No olhar que se não  desprende,
pulsam mensagens sem explicação racional.

São formas de comunicação ancestrais, antigas como o tempo.
Adivinhação mas procura.

No olhar de quem se adivinha amando, 
paralelo à felicidade transmite-se procura, indagação, 
ânsia de descobrir que se veio ao mundo 
para resgatar as incompletudes daqueles com quem 
se relacionará profundamente, 
se os  encontrar e souber que encontrou.

 Procura mas encontro.
No olhar que se cruza e paralisa cheio de significações 
encontra-se a instância deslumbrante na qual o ser 
se descobre aceito, querido, perdoado e permitido.

 ...Sombra mas Espelho.
Se o olhar que se encontra revela o fundo do outro ser, 
transparente em sua averbalidade, 
ao mesmo tempo ele devolve a imagem 
de quem olha espelhando apenas 
o lado bom, nítido, fada ou príncipe encantado.

Reflete a melhor luz, a aura mais doce.
Não, não me refiro ao olhar apaixonado.
Falo de algo além, o olhar que se paralisa no outro.
Que se apavora de adivinhar-se possivelmente feliz 
e se descobre em profundidade e espanto 
no poço do outro,
no fundo do qual mora uma certeza nunca antes confirmada.

Está no amor ou na paixão como na amizade ou atração carnal.
Está na chegada como na despedida, 
aparece no meio da festa ou durante o jantar, na fila do Maracanã ou na solenidade de posse. Está nos hospitais ou na Igreja. 
No crime ou no perdão.Ele não tem medo. 

Não depende de conveniências, não precisa ser o primeiro olhar: pode vir muitos anos depois de quem, ou para quem já, muito se olhou.

É instante de revelação e descoberta:
revela verdades anteriores à própria vida.

Atemporal, independe também de espaço: perdura no cosmos, 
religa verdades, encarnações, cromossomos.
Pode vir pacífico como  amplidão
ou aflito como a taquicardia, que em geral provoca.


...Nada o detém, limita ou qualifica.
...Sua relação é com as certezas que a razão nunca terá, mas a emoção,  intuição e o sentimento ( que vão além), de há muito as conhecem. 
Existe quando e onde  sempre existiu. E existirá, a despeito de nós.

8 de maio de 2011

AS SEM RAZÕES DO AMOR (Carlos Drummond de Andrade)



Eu Te Amo Porque Te Amo.
Não precisas ser Amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu Te Amo porque Te Amo.
Amor é estado de graça,
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque Amor não se troca,
não se conjuga, nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

5 de maio de 2011

CLARICE LISPECTOR...




"Ainda bem que sempre existe outro dia.
E outros sonhos.
E outros risos.
E outras pessoas.
E outras coisas... "


"Há momentos na vida 
em que sentimos tanto a falta de alguém 
que  o que mais queremos
é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la..."


"Eu não escrevo o que quero,
Escrevo o que sou..."

"Não quero ter
a terrível limitação de quem vive apenas 
do que é passível de fazer sentido.
Eu não: 
Quero é uma verdade inventada!"



"Eu escrevo sem esperança de que
o que eu escrevo altere qualquer coisa.
Não altera em nada...
Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas.
A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro!"



"...pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, 
coubera arrancar de seu coração a flecha farpada..."




"Saudade é um pouco como fome:
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco,
Quer-se absorver a outra pessoa toda!
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes que se tem navida."



"Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo 
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois,
De como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é  entre o sentir 
- nos interstícios da matéria primordial 
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo 
é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio!"


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...