26 de setembro de 2011

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA ( Manoel de Barros)





Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e 
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo 
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces 
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo 
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou  a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar  água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

21 de setembro de 2011

CANÇÃO DESSE RUMOR ( Lya Luft )






Quem - estando ausente - entra no quarto,
Quem deita ao lado meu,
Quem passa no meu coração seus lábios quentes,
Quem desperta em mim as feras todas,
Quem me rasga e cura,
Quem me atrai ?


Quem murmura na treva e acende estrelas,
Quem me leva em marés de sono e riso,
Quem  invade meu dia após a noite,
Quem vem - estando ausente -
E nunca vai ?

19 de setembro de 2011

CANÇÃO DE ALTA NOITE (Cecília Meirelles)




Alta noite, lua quieta,
Muros frios, Praia rasa.


Andar...Andar... que um poeta
Não necessita de casa.


Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.


Um poeta, na noite morta,
Não necessita de sono.


Andar... perder o seu passo
Na noite, também perdida.


Um poeta, à mercê do espaço,
Nem necessita de vida.


Andar... enquanto consente
Deus que seja à noite andada.


Porque o poeta, indiferente,
Anda por andar... somente.

Não necessita de nada.

16 de setembro de 2011

PUS O MEU SONHO NUM NAVIO ( Cecília Meirelles )


Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar;
Depois, abri o mar com as mãos,
Para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas,
E a cor que escorre dos meus dedos
Colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe...
A noite se curva de frio...
Debaixo da água vai morrendo
Meu sonho dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
Para fazer com que o mar cresça,
E o meu navio chegue ao fundo
E o  meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará Perfeito: 
Praia lisa, Águas ordenadas, 
Meus olhos secos como pedras
E as minhas duas mãos quebradas...

13 de setembro de 2011

AO CORAÇÃO QUE SOFRE (Olavo Bilac )




Ao coração que sofre, separado
do teu, no exílio em que a chorar me vejo;
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.


Não me basta saber que sou Amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.


E as justas ambições que me consomem,
não me envergonham: pois maior baixeza
não há, que a terra  pelo céu trocar.


E mais eleva o coração de um homem,
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente AMAR !



9 de setembro de 2011

SENTIR TUDO ( Álvaro de Campos, por Fernando Pessoa )




Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos  possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos,
Num só momento difuso, profuso, completo  e longínquo.


Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo, 
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.


E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.


Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.


Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

5 de setembro de 2011

UM BEIJO ( Olavo Bilac )




Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior... glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida !

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca mal ferida.

Beijo extremo, meu premio e meu castigo,
Batismo e extrema unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo ?

Sinto-te no ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo Divino ! E anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto.

2 de setembro de 2011

SONETO 18 ( WILLIAM SHAKESPEARE )



Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno,
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o sol em demasia,
Outras vezes obscurece com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na eterna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás,
Nem chegarás exausta ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos ardentes te farão viver!

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