26 de novembro de 2011

O VENTO NA ILHA ( Pablo Neruda )



O vento é um cavalo:
Ouça como ele corre 
pelo mar, pelo céu.

Quer me levar...escuta 
como ele corre  mundo
Para me levar para longe.


Me esconde em teus braços,
Por somente esta noite,
Enquanto a chuva rompe 
contra o mar e a terra,
 sua boca inumerável.


Escuta como o vento 
me chama galopando,
Para me levar para longe.


Com tua fronte a minha,
Com tua boca em minha boca,
Atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
Deixa que o vento passe
sem que possa me levar.


Deixa que o vento corra 
coroado de espuma,
que me chame e me busque, 
galopando na sombra,
enquanto eu, protegido, 
Sob  teus grandes olhos,
Por somente esta noite...
Descansarei.. Meu Amor !




16 de novembro de 2011

IMPASSÍVEL DIANTE DO DRAGÃO ( Neimar de Barros)



Há quanto tempo nos conhecemos ?
Sei lá...
Eu vinha, você ia... foi um encontro comum, casual.
Milhares já se encontraram assim,
Depois eu comecei a sentir algo,
Talvez uma saudade sem razão...
sei la´...
Não era tristeza, não era alegria,
Era uma indecisão de amar você ...
E eu passava momentos, olhando para frente,
Desligado, sem ver nada.
Engraçado, olhava e não via!
Estava absorto... parado... consumido por mim:
Uma verdadeira estátua em introspecção!
Estava "encucado"!
"Encucado" com ausência que era presença.
E de repente, a interrogação indecisa foi evaporando,
E eu vi dentro de mim que era Amor!
Você estava enquadrada no que eu queria,
Desde o sorriso até as lágrimas.
Você era o sim diante do altar,
Você era a mão certa na hora incerta,
Você era o horizonte nítido... o agasalho...
Mas eu cometi um erro:
Não perguntei se eu também era tudo isso pra você!
E a verdade é que não era...
Eu não estava enquadrado no que você queria,
Eu era o não..
Não era sorriso, não era agasalho, não era nada...
Era um ser andante maravilhosamente invisível para você.
E de repente, a exclamação veio em "closed"...
E eu fiquei afirmando seus defeitos,
Fiquei procurando tudo o que você fazia de errado,
E você não fazia nada!
Fiquei torcendo pra você me decepcionar,
Afundei-me como arqueólogo nas ruínas da sua imagem adorada,
E você permaneceu intacta,
Eu quis desmanchar a ilusão,
Quis vomitar um amor que me assentava bem,
E torci pra você me decepcionar,
Eu queria tanto sentir raiva de você, ódio...
No entanto, você se manteve a mesma,
Impassível diante do dragão no qual me transformei...
Então, me decepcionei comigo,
Porque não compensei o que queria 
Com o que sentia...
E numa noite não muito longe,
Resolvi selar a carta da despedida:
Fechei os olhos,
As lágrimas pingaram uma a uma...
E eu adormeci... sonhando o sonho da aceitação!...




15 de novembro de 2011

A CASA DAS PALAVRAS ( Eduardo Galeano )




Na Casa das  Palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas.
As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal,
esperavam pelos poetas e se ofereciam,
loucas de vontade de ser escolhidas:
Elas rogavam aos poetas...
Que as olhassem... as cheirassem... as tocassem... as provassem!
Os poetas  abriam os frascos,
provavam palavras com o dedo e então...
lambiam os lábios ou fechavam a cara.
Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam,
e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido.
Na casa das palavras havia uma mesa das cores.
Em grandes travessas as cores eram oferecidas,
E cada poeta se servia da cor que estava precisando:
amarelo-limão ou amarelo-sol,
azul do mar ou de fumaça,
vermelho-lacre, vermelho-sangue, vermelho-vinho...


1 de novembro de 2011

QUANTO MAIS ( Álvaro de Campos, por Fernando Pessoa )



Quanto mais eu sinta... 

Quanto mais eu sinta como várias pessoas,

Quanto mais personalidades eu tiver,

Quanto mais intensamente...

Estridentemente as tiver...

Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,

Quanto mais unificadamente diverso...

Dispersadamente atento estiver,

Sentir..Viver..For..

Mais possuirei a existência total do universo,

Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.



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