25 de agosto de 2016

O AMOR (Segundo Caio Fernando Abreu"Pequenas Epifanias")






Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você..
Mais de tardezinha que de manhã,
Mais naqueles dias que parecem poeira assenta
e com mais força quando a noite avança..
Não são pensamentos escuros, 
embora noturnos..
                Sabe, eu me perguntava até que ponto
         você era aquilo que eu via em você
                              ou apenas aquilo que eu queria ver em você..
Eu queria saber até que ponto 
você não era apenas uma projeção
daquilo que eu sentia, e se era assim, 
até quando eu conseguiria ver em você
todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo,
sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas,
e pensava que amar era só conseguir ver,
e desamar era não mais conseguir ver, entende ?
Eu quis tanto ser a tua paz,
                             quis tanto que você fosse o meu encontro.
      Quis tanto dar, tanto receber..
       Quis precisar, sem exigências..
E sem solicitações, aceitar o que me era dado.
Sem ir além, compreende ?
Não queria pedir mais do que você tinha,
assim como eu não daria mais do que dispunha,
por limitação humana..
Mas o que tinha, era seu..

Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente ?

                                     Melhor interromper o processo em meio:
     quando se conhece o fim,
                                  quando se sabe que doerá muito mais - 
Por que ir em frente ?
Não há sentido: 
Melhor escapar deixando uma lembrança qualquer...
lenço esquecido numa gaveta..
camisa jogada na cadeira, uma fotografia..
Qualquer coisa que depois de muito tempo
a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por que..
                  Melhor do que não sobrar nada,
          e que esse nada seja áspero 
      como um tempo perdido..
Tinha terminado, então. 
Porque a gente, alguma coisa dentro da gente,
sempre sabe exatamente quando termina.
Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas.
Uma lembrança boa de você,
uma vontade de cuidar melhor de mim,
de ser melhor para mim e para os outros.
                 De não morrer, de não sufocar,
                            de continuar sentindo encantamento
                                          por alguma outra pessoa que o futuro trará,
                                  porque sempre traz,e então não repetir 
                            nenhum comportamento....Ser novo.
Mesmo que a gente se perca, não importa.
Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro.
Mas que seja bom o que vier,
para você, para mim..
                         Te escrevo, enfim, me ocorre agora,
                                              porque nem você nem eu somos descartáveis.
E eu acho que é por isso que te escrevo,
para cuidar de ti, para cuidar de mim,
para não querer, violentamente não querer de maneira alguma
ficar na sua memória, seu coração,
sua cabeça, como uma sombra escura..










14 de janeiro de 2016

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO (Sophia de Mello Breyner Andressen)










Para atravessar contigo o deserto do mundo,
Para enfrentarmos juntos o terror da morte,
Para ver a verdade, para perder o medo,
Ao lado dos teus passos caminhei.


Por ti deixei meu reino, meu segredo,
Minha rápida noite, meu silêncio,
Minha pérola redonda e seu oriente,
Meu espelho, minha vida, minha imagem,
E abandonei os jardins do paraíso.


Cá fora à luz sem véu do dia duro,
Sem os espelhos vi que estava nua,
E ao descampado se chamava tempo.


Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

( "Livro Sexto" - Sophia M.B. Andressen)
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